quinta-feira, 26 de março de 2015

Chegou agora
É uma das alturas em que tens de ter coração cheio

e ele quase salta do peito

Todos os órgãos do meu corpo querem saltar de mim e fugir desta situação
Estou encurralada
Morro de medo
Tirem-me daqui
Mas tenho de estar aqui
É uma vacina
É puxar um penso rápido
Inspira e um dois três
Expira na parte má

Mas a parte má não é um instante
É uma hora
Como se expira durante uma hora?
Expira, expira e depois já não respira
Ter os pulmões presos na boca como flores mortas
apodrecidas, sangue coagulado de um gato estripado no meio da estrada
ai ajudem-me caralho
Estou cheia de medo e quero com anestesia geral
Quero acordar e já estar tudo feito
E disso tudo só sobrarem os pontos que daqui a uma semana posso tirar sozinha em casa
Isso sim, e uma cicatriz feiinha
Pequena, que não se note muito
Sou a paciente nua sob observação
Tenho as tripas de fora
Como o gato no meio da estrada

Fodam-me, matem-me, asfixiem-me
De forma a que eu não tenha um papel activo nisto
Deixem-me ser a vítima
Deixem-me não ter de falar
Deixem-me não ter culpa

sábado, 25 de outubro de 2014

deixou-me
atirou-me fora do barco pelos cabelos.

eu disse que não estava pronta
disse que era cedo
atrás de sorrisos pouco credíveis,
de palavras de acordo.

a dignidade é o mínimo a que tenho direito
neste eterno retorno.
eu só viro costas quando o assunto já está terminado,
para oficializar qualquer coisa,
para assumir que as costas me foram viradas
a mim.

tiveste-me nos braços o corpo frágil,
magro, sem forças
incapaz de se levantar só por si.
tiveste-me nos braços, ponto,
tiveste-me.
talvez não como querias,
talvez não ao ponto que querias,
mas eu dei-me.
dei-me.
apesar de tudo.
de todas as barreiras,
de todas as desconfianças,
do medo
e da voz que me dizia,
baixinho,
que me ias deixar,
que me ias atirar fora do barco...
pelos cabelos.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Cantarei, tenho a voz cheia de feridas
- fora cosida com as suas próprias cordas.
Dói se eu falar alto, dói se eu contar
Guarda em si tal segredo
que se me olharem fico com tanto medo
imaginando, aterrorizada, o tormento
que seria se, porventura, pudessem ler meu pensamento.
As crostas frágeis escondidas atrás da doçura...
A música cobrindo a hemorragia...
Mesmo sabendo o meu canto gemidos de agonia
- cantarei. Nunca mais me calarei.
Rebente os pontos, fique muda de prantos,
cantarei, cantarei, cantarei!
o mais alto que puder,
mais que a minha assombração
prevalecerão os restos sangrentos da canção
que não aceita nenhum silêncio nunca mais.
amo a dor
derramar-me-ei de boa vontade
entrego-me
tudo é belo
tudo é ofegantemente belo
quero doer
quero respirar
quero a vida, assim, ferida
aguda
sentir o ar quando entra por mim a dentro
sentir todas as pedras do chão
todo o frio, todas as queimaduras
inclino-me para trás
rendo o peito:
nada temo.
não tenho medo de morrer.

 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Às vezes fico a pensar em quem é que me faz isto.
Quem é que entrou, sem eu dar por nada, na minha cabeça,
se escondeu num sítio qualquer, debaixo da desorganização toda
e me começou a atacar desta maneira?
Quem é que me atira estes pensamentos como balões de água fria,
quem é que remexe nas minhas memórias baixinho, sem eu notar,
e deixa tudo fora do sítio, as gavetas tombadas, com imagens e palavras
que eu não quero, não posso ver, não vou olhar...
Ficam ali no chão da minha casa
como se fosse um pequeno acidente, uma curiosidade,
uma coincidência - uma moldura que caiu inocentemente...
Ficam ali sorrindo, fingindo que não sabem o quanto me afectam,
esperando pacientemente que as apanhe do chão e as guarde na gaveta profunda.
Quem é que me faz estas coisas? Quem sabota os meus planos?
Quem manipula tudo com alarmes violentos?
Quem é que faz isto? Quem é que me faz isto?

Um ninho de ratos dentro da parede,
de rasto só deixam dentadinhas e eu não estou doida.
Não estou doida, não estou doida, não estou louca.
Alguém me tem assombrado a casa. Eu tenho ouvido.
 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

não quero mais, quero tudo ao de leve,
aproxima-te devagar - mas sê breve,
não quero nada que me eleve,
não quero ir mais longe do que o toque
tudo o que é intenso é um choque
e eu quero paz, quero dormir sozinha,
sem impressões esquisitas na espinha,
sem pesadelos que me façam suar.

quero andar sempre despida
 livre, exposta, nua,
que no fim é sempre o frio que me dá vida,
que a verdade, se é verdade, é sempre crua.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Queria entrar como fantasma na tua memória:
ver e sentir tudo quanto passou, ouvir teu pensamento,
estar bem dentro de ti e conhecer cada história
que não vivi contigo, qualquer coisa que escapou,
que caiu no esquecimento, perdida no buraco negro e escuro
que é a cabeça e a recordação de alguém.

São medos, são controlos, são frustrações
de quem não dorme temendo omissões:
paranóias graves, sem distinguir ilusões
da realidade

(como tu a vês,
ou como ma escondes)